Tríplice Aliança – parte II
Londres, 31 de Dezembro de 2008. O frio estava absurdo e todos se arrumavam para a virada do ano. Fábio fazia uma receita de camarões que era a preferida de Estela e uma sobremesa de amoras, preferida de Júlia. Nessas viagens de final de ano o destino escolhido tinha que ter uma cozinha digna das receitas inspiradas pela viagem. Essa era a única condição imposta por Fábio.
Estela colou um CD do Jamie Cullum e subiu para se arrumar. Um casal de amigos deles também estava em Londres e os encontraria em breve. Júlia estava saindo do banho. Naquele ano ela havia sido promovida a chefe do gabinete que trabalhava e, por conta disso, não comia mais com a mesma freqüência. Perdeu 5 Kg e estava gos-to-sa. Estela a viu se trocando e admirou o corpo à sua frente. Estava realmente deslumbrante.
Todos prontos, o casal de amigos chega. Uma viuvinha é aberta. Champagne era uma paixão em comum aos três. Uma, duas, três garrafas. O jantar é servido. Fábio supera todas as ceias anteriores. Júlia e Estela o ajudam a servir os convidados e retirar os pratos. Os cinco seguem para festa em frente ao palácio, onde acontece a contagem.
Cada um segura uma garrafa. Fábio tem duas. Todos bêbados e congelados dançam ao som do Police. Esse era o show antes da contagem. Júlia reparava que Estela a olhava de uma maneira diferente, engraçada... O mesmo olhar vinha de Fábio. Ele olhava engraçado para as duas...
10, 9,8,7,6,5,4,3... Fábio, Júlia e Estela dão as mãos. 2, uuuuuuum! Eles apertam as mãos e se beijam. Os três. Na boca. Isso nunca tinha acontecido. Não era um ritual normal de passagem de ano. Não para eles. Acabam o beijo e se olham. Estela e Júlia riem. Fábio ainda está em choque. Estela percebe o estado do amigo e o beija novamente. Júlia abraça os dois. Riem e dão outro beijo triplo. Um beija a outra que beija a outra, que beija o outro. E assim acontece a viagem inteira...
Na volta para Brasília, o pacto é de silêncio. Aquilo, se fosse acontecer de novo, aconteceria somente em viagens. Era o combinado. Os três chegam à cidade e pegam táxis diferentes. Cada um para a sua casa. Antes de dormir, o trio reflete sobre o ocorrido. O que seria dali pra frente? Surpreendentemente, tinha sido tão bom. Pra qual lugar seria a próxima viagem?

No dia seguinte, ninguém se ligou. Ninguém se encontrou. Júlia havia voltado para a correria de seu trabalho. Estela estava procurando um novo apartamento e Fábio estava com o trabalho do escritório acumulado. Assim se seguem os dias da semana, até que no sábado à noite Estela manda uma mensagem para os outros dois:
“Reunião da cúpula aqui em casa? Fábio cozinha, eu escolho o vinho e a Júlia escolhe a música.”
Mais uma noite, comendo bem, bebendo bem, rindo e dançando. O ocorrido em Londres ainda não havia sido mencionado. Coldplay começa a tocar e Fábio puxa Júlia para dançar. Os dois se abraçam e dançam, cantando a música de olhos fechados. Ela começa a passar a mão na nuca de Fábio. Pega nos cabelos e desliza sobre o pescoço. Ele a beija. Estela fica olhando. Os dois abrem os olhos e se separam.
Esse não era o combinado. A amizade estava fodida? Já que vai pro inferno é pra abraçar o capeta? Namorar a três? Será que ela quer? Será que ele quer? Será que ela quer? Os três se olharam apavorados. Aquilo poderia ser a glória ou o fracasso de uma relação de anos.
Fábio: Gente, vamos conversar?
Júlia: Por favor, né? Cacete.
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Estela: Cacete. Voador.
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Fábio: Então, é o seguinte. Eu acho isso lindo! Se vocês não alucinarem, eu topo tentar.
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Estela: Ô Fábio, não é assim não. Tentar o que? Tá lóke? E a nossa família?
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Fábio: Foda-se a minha família. Foda-se o resto todo. Eu acho que eu sempre quis isso, na verdade. Pensei nisso o resto da viagem inteira. Você vai me dizer que não acha que um é o equilíbrio do outro aqui? E tem mais, eu vejo o jeito que vocês se olham. Isso não é uma viagem tarada da minha cabeça.
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Júlia: Eu acho o seguinte. Não precisa ser uma coisa pública. Não precisa ser tão sério. Pode ser leve, trabalhando o desapego. Eu também pensei o resto da viagem todo.
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Estela: Eu preciso de um tempo pra pensar. Quando eu souber ligo pra vocês.
Os dois vão embora. Estela, Fábio e Júlia não conseguem dormir. Estela se lembra de quando se mudou para Brasília e foi para o primeiro dia de aula. Lembra que a amizade dos três partiu de uma iniciativa dela. Lembra da vez que viu Júlia sair do banho e sentiu uma admiração diferente, das vezes que tinha dividido a cama com Fábio e como aquilo lhe fazia bem... Não era possível uma vida sem os dois. Não teria graça.
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Júlia passou a noite refletindo sobre as mesmas coisas. As viagens programadas, as risadas dadas, os beijos trocados... O carinho que sentia por Fábio e Estela. A cumplicidade entre os dois... O desejo que sempre havia sido reprimido.
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Fábio pensava em todas as putarias que os três poderiam fazer. No jeito doce de Júlia e na alegria de Estela. Uma completava a outra. Os três entravam em equilíbrio. Pensou como seria o futuro a três e viu que, na verdade, já viviam uma relação assim desde sempre. A única diferença era colocar o sexo em jogo. Um jogo a três. Para ele estava ótimo!
No dia seguinte, os três se encontraram para almoçar. Estela havia escolhido o restaurante preferido de Fábio. Os três sentam-se e conversaram sobre qualquer assunto que não tivesse ligação com o ocorrido na noite anterior. Fábio esperava o pronunciamento de Estela. Júlia fazia o mesmo. Horas, pratos e bebidas. Estela propõe que o fim do almoço seja na casa dela. Ela tinha se arriscado a fazer a torta de amora preferida de Júlia.
Champagne e torta de amora. Champagne e torta de amora. Champagne. Champagne e coldplay. Eu os declaro mulher, marido e mulher.
Texto publicado por uma ilustríssima leitora em seu blog, o Sans Lendemain (http://porradedisponibilidade.blogspot.com), no dia 21 de dezembro de 2008.


