sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Outono vermelho - Parte III

Mikhailov parecia catatônico. Os olhos de azul intenso faiscavam. Deixara o chá de lado e ficara absorto nos próprios pensamentos.

– Dimitri, fala comi...

– Me dê um minuto, por favor!

Tatiana sabia domar o amigo como ninguém. Mas tinha noção de limites. E aquele era o dele. Definitivamente. Serviu-se de um pouco mais de chá de cereja e escorou as costas no sofá acolchoado.

– Tânia. Qual era a cor do pó que encontraram nas narinas de Dona Oksana?

– Azul...

O rosto de Mikhailov estremeceu, e o corpo afundou no sofá vermelho do salão de chá. Para ele, só poderia ser a mesma substância que dois meses antes matara um velho espião russo. Nenhum perito do governo a identificara, apesar dos inúmeros testes. Mikhailov consumiu mais alguns minutos para decidir que não contaria nada aos superiores. Pelo menos por enquanto. Preferia aprofundar melhor a investigação para depois passar alguma informação ao comando militar russo. Eram tempos de Brezhnev¹. Tempos de Guerra Fria e de instabilidade interna e nos países dominados pelos regime comunista.

Discretamente, Mikhailov colocou a mão por dentro do casaco. Destravou a arma e levantou-se da mesa em um pulo. Puxou Tatiana pelo braço e disse:

– Venha comigo, Tânia. Problemas sérios à vista. Você dirige. Para a casa dos seus pais.

O casal entrou no carro de Mikhailov, um Moskvich 412 verde-escuro, e acelerou pelas ruas de Moscou. Mikhailov aproveitou para falar sobre o espião assassinado. Disse a Tatiana que o velho morrera enquanto investigava o desaparecimento de uma espécie de diário. Ninguém sabia ao certo os detalhes das anotações nem de quem seriam. Mas pareciam ser segredo de Estado.

– Tânia, seu pai tinha um cofre ou algo parecido?

– Não que eu saiba, Dimitri. Você sabe que a gente não se falava.

Por orientação de Mikhailov, Tatiana estacionou o veículo em uma rua adjacente à dos pais. Os dois desceram. O militar olhou para todos os lados antes de entrar no prédio, um belíssimo embora mal-conservado edifício dos anos 40. A fachada deixava os tijolos à vista e ostentava algo que lembrava colunas bizantinas. Dimitri tinha a sensação de que alguém o seguia, mas preferiu ignorar o instinto profissional.

Mikhailov e Tatiana entraram no apartamento por volta das 23h. O imóvel estava há cerca de um mês desabitado. Com o pai desaparecido e a mãe na UTI, nem mesmo ela voltara ali. Fazia, aliás, anos que Tatiana não pisava naquele lugar. Ela reparou com ternura que a decoração permanecia a mesma. Móveis pesados de madeira escura e sofás e poltronas de estampa florida, agora desgastada, permaneciam distribuídos da mesma forma nos quatro cômodos do apartamento.

Mikhailov perguntou pelo escritório. Tatiana apontou uma porta espessa de madeira trabalhada. Estava trancada. Mikhailov deu-lhe um pontapé, sem perguntar nada à herdeira. Tatiana evitou protestos, mas não deixou escapar a oportunidade:

– Você poderia ter me pedido a chave. Está aqui comigo. – disse ela, com um sorriso no canto da boca.

Mikhailov ficou envergonhado, mas não deu ouvidos à provocação da amiga. Deu uma olhada em volta do ambiente. Eram livros e mais livros, de vários assuntos e tamanhos. Também reparou na mesa do dono da casa, perfeitamente organizada. Em cima, uma agenda de capa preta, uma caneta dourada e um peso de papel feito de vidro. Em silêncio, mexeu em quadros, tirou livros do lugar e usou a bota pesada para dar pancadas no chão de madeira. Bem no centro do cômodo, ouviu o que queria: um estampido oco.

– Eu sabia. O velho Andrei não deixaria de ter um cofre em casa. É o que pateticamente fazem todos os antigos membros da KGB.

Aquelas três letras instantaneamente fizeram o ar sair dos pulmões de Tatiana. Era chocante ouvir o nome do pai associado à sigla da maior agência de informação e segurança do mundo, influente internacionalmente a partir dos anos 1950.

– O quê? Papai era da KGB? Por que eu nunca soube, Dimitri?

– Depois eu te explico. Agora, a gente precisa descobrir uma sequência de números capaz de abrir esse cofre aqui – apontou Mikhailov, ao levantar o tapete do escritório e retirar seis pedaços de madeira do piso.

Tatiana respirou fundo. Estava confusa, com a cabeça à deriva em um turbilhão de memórias e lembranças. Agora, sim, algumas atitudes do pai faziam sentido. Mesmo assim, se concentrou:

– Deixa eu dar uma olhada, Dimitri.

– Precisamos de quantos números, Tânia?

– Não sou uma especialista no assunto. você sabe. Mas... Talvez precisemos de seis números.

Tatiana arriscou várias combinações. Tentou aniversários, datas importantes da Revolução Russa, mas nada deu certo.

– Qual era a palavra que Dona Oksana repetiu tantas vezes na UTI? – pensou alto, Mikhailov.

Temniy. Por quê?

– Me dê um pedaço de papel.

Tatiana rasgou uma folha da agenda do pai e a alcançou a Mikhailov junto com a caneta dourada. O militar escreveu as seis letras no papel, rabiscou mais alguma coisa e mostrou a Tatiana.

T = 20
E = 05
M = 13
N = 14
I = 09
Y = 25


– Não entendo, Dimitri.

– É aparentemente simples, Tânia, apesar de todo o conhecimento matemático do teu pai. Cada letra corresponde numericamente à posição dela no alfabeto ocidental, se eu estiver certo. Por alguma razão ele contou isso à sua mãe.

Tatiana tomou o pedaço de papel de Mikhailov e testou os números no segredo do cofre. Gotas de suor escorriam pelo lindo rosto da moça a partir dos cabelos escuros e encaracolados. Ao fim do sexto número, a caixa de metal deixou escapar um estalo. Estava destravada. Mikhailov tomou a frente e pegou a única coisa que jazia no fundo do esconderijo. Não havia joias nem dinheiro. Mas um livro. Ou melhor, um diário.

Sob o olhar atento e incrédulo de Tatiana, Mikhailov leu as iniciais gravadas no pequeno livro de capa de couro preta. J.S. Não precisou de muito esforço para entender que se tratavam de Josef Stalin. Mikhailov e Tatiana sentaram-se lado a lado no piso de madeira do escritório de Andrei Miller-Koeckert e se dedicaram à leitura do material. Os batimentos cardíacos de aceleravam a cada linha escrita em letras elegantes e discursivas.

Uma passada de olhos logo nas quatro primeiras páginas os deixou chocados. Entendiam, naquele instante, o valor do diário e o perigo que ele representava para os alicerces do comunismo no mundo. Se caíssem em mãos norte-americanas, representaria a desgraça para o equilíbrio de forças da Guerra Fria. E uma coisa era certa: a balança certamente penderia para a bandeira listrada em vermelho e branco.

Antes que pudessem continuar a leitura, um homem corpulento e barbudo, de olhar agressivo e frio, apareceu na porta do cômodo. Deu três batidas no pedaço de madeira, o suficiente para assustar de quase morte o casal de militares. Mikhailov e Tatiana ergueram os corpos de supetão.

– Quem é você? – reagiu Tatiana.

– O anjo da guarda. Vamos, me dêem esse diário. A brincadeira de vocês acaba por aqui ­– disse, sereno e tranquilo, o vulto parado na entrada do escritório, ao mesmo tempo em que apontava uma AK-47 em direção ao casal.

– De que lado você está? – adiantou-se Mikhailov.

– Do mesmo lado de vocês, caso me entreguem o diário. Mas uma coisa eu posso te dizer, caro Dimitri Mikhailov, você não deveria estar aqui – explicou o intruso.

Tatiana interferiu na conversa. Estava ansiosa por respostas.

Sei que você é um de nós, camarada. Mas quero e preciso saber do meu pai. E o que houve com a minha mãe?

– Esqueça, Tatiana. Seus pais estão mortos. E até agora não sabemos como esse diário foi parar nos domínios do seu pai, que há anos estava aposentado. Provavelmente, alguma aluninha gostosa dele o encontrou perdido em casa e entregou a ele como uma espécie de recompensa pelos favores sexuais. Seu pai, aliás, não era apenas um bom espião, sabia? Soube morrer com dignidade. Até agora não entendo por que ele não quis dizer onde estava essa porcaria.

Tatiana perdeu o equilíbrio diante de tais palavras. Em poucas frases, o sórdido visitante fora capaz de falar sobre a morte dos pais da maneira mais desrespeitosa e nojenta possível. Era demais para uma filha.

– Olha aqui, seu filho da puta. Você não pode entrar na minha casa e...

O espectro a cortou secamente, sem desviar os olhos da bela russa:

– Tatiana, entendo que você esteja com raiva. Mas as coisas são como são. Se seus pais tivessem destruído o diário, eu não teria que acabar com eles nem acabar com vocês, agora, neste momento. Se os dois fossem inteligentes, me entregariam esse pequeno livro. É a vida de vocês que está em jogo, apesar de perceber que já têm informações demais... – sentenciou o sujeito, com ares de ameaça.

Mikhailov, confuso com a presença do estranho, teve poucos segundos para pesar o passado, o presente e o futuro. Amava o regime. Amava os ideais de Vladimir Ilychi Ulianov, o Lênin. Mas não nutria o mínimo respeito por Josef Stalin e aqueles que o sucediam no poder. Tinha raiva. E da mesma forma se dirigiu ao colega de corporação:

– Sim, sabemos de tudo, meu caro. Mas acredito que, se Josef Stalin era homossexual...

Um estampido aterrorizante tomou conta do escritório da família Miller-Koeckert antes que Mikhailov pudesse terminar a frase. O intruso frio e insano só teve tempo de arregalar os olhos. Um fio de sangue escorreu pela testa do agente da KGB, e o corpo desabou sobre o piso de madeira. O invasor estava morto. Pelas mãos de Tatiana, que escondia uma arma por debaixo do casaco.

– Vamos embora, Tânia. Antes que seja tarde.

– Meu Deus, por que eu fiz isso? Estamos perdidos, Dimitri! Perdidos!

Em menos de seis horas, os dois militares se acomodavam dentro de um dos vagões do principal trem de carga russo, prestes a alcançar a Hungria.

– Dimitri, isso tudo é uma loucura...

– Eu sei, Tânia, eu sei.

­– Será que em algum dia poderemos voltar ao nosso país?

– Talvez em algum outono menos vermelho – encerrou Mikhailov, a balançar, confiante, o diário de Josef Stalin.

Em breve o mundo descobriria os segredos de um dos maiores ditadores da história da humanidade.

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¹ N.A.: Leonid Ilyich Brezhnev, sucessor de Nikita Khrushchev como secretário geral do Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Também chefe de estado por dois períodos: 1960-64 e 1977-82.